Libertação! Gil huir, egae ódan...
Por que sempre pensamos que nossas esperanças têm alguma coisa a ver com a realidade? Costumamos achar, quando somos arrebatados por um sentimento muito forte, que de alguma maneira misteriosa, por alguma razão inexplicável, o universo vai colaborar conosco, vai nos enredar numa teia de circunstâncias convenientes. Uma das curiosas propriedades da paixão é justamente a de fazer crescer nosso otimismo a um ponto tal que chegamos a esquecer que vivemos num universo de sorte; às vezes um sentimento é tão abrangente, nos preenche de um jeito tão inebriante que perdemos a noção de realidade. Tudo que existe passa, de uma maneira ou outra, a se relacionar àquilo. E então nos parece ridículo que algo tão maior que nós mesmos exista, pura e simplesmente, e que não se reflita de nenhuma maneira no desenrolar dos fatos. É irrisório pra um apaixonado que a única relação entre o mundo exterior e suas emoções é aquela que a imaginação cria; ninguém que esteja amando cogita, por um segundo sequer, que os outros não têm nada a ver com aquilo, e que não existe ninguém zelando por aquele sentimento e cuidando pra que ele seja bem sucedido. Esse é o erro mais perigoso, e infelizmente o mais comum entre os que amam. A verdade é que, crenças à parte, não existe nenhuma entidade ou força minimamente interessada em tornar nossos sonhos realidade. A própria esperança é um sentimento que nasce sem nenhum estímulo externo; é a crença de que tudo vai dar certo surgida do nada, sem nenhum indício de que as coisa vão ser assim ou assado. Ela nasce e habita em nós, nós a alimentamos e ela não tem a ver senão conosco, mas no enlevo da paixão, esquecemos que ela não tem razão fora de si mesma pra ser. É uma ilusão auto-sustentável que nos afasta dos fatos. Em suma, quando percebemos algum indício de que os acontecimentos vão ao encontro das nossas expectativas, o mais prudente seria lembrar que geralmente somos nós mesmos projetando nossas vontades em fatos totalmente alheios a elas.
O amor, mais do que a esperança, é um sentimento dúbio. O amor apaixonado é um sentimento que difere dos demais naquilo que é o mais importante no que tange a relações humanas: ele não exige reciprocidade! A amizade, o amor fraternal e paterno e o próprio ódio são emoções que nascem de eventos que invariavelmente envolvem as duas partes. Não criamos laços de amizade afastados, ninguém se torna amigo de outra pessoa sem que essa sinta o mesmo (ainda que, algumas vezes, aconteça de a amizade ser mais forte de um lado que do outro...), ou pelo menos sem conviver com ela; da mesma forma, não odiamos alguém sem que nos façam algo. É justo, então, amar alguém tanto que o bem-estar dessa pessoa se torne mais relevante pra nós do que o nosso próprio? É justo que a emoção mais arrebatadora de todas não implique nenhuma reciprocidade ou passado? O foda é que a vida não é justa! A gente vive numa porcaria de mundo em que o tamanho dos nossos esforços não é proporcional aos nossos sucessos; um mundo em que a alegria de um quase sempre é causa de tristeza pra outro; um mundo em que uma pessoa ama outra mais do que a si mesma e essa pessoa escolhe uma terceira por razões que seria doloroso demais tentar descobrir. Isso me leva a perguntar: vale a pena se deixar cativar sabendo que nada garante a felicidade do sentimento, mas sim que tudo aponta pro fracasso? Vale a pena investir num amor que só vai fazer sentido pra um coração esperançoso, sendo a própria esperança um desvio de percurso? Nós vivemos uma vida em que o amor se torna, a cada dia, “persona più non gratta”, e não é sem razão. É preciso muita coragem pra se apaixonar, e infelizmente a coragem também arrefece.
O amor, mais do que a esperança, é um sentimento dúbio. O amor apaixonado é um sentimento que difere dos demais naquilo que é o mais importante no que tange a relações humanas: ele não exige reciprocidade! A amizade, o amor fraternal e paterno e o próprio ódio são emoções que nascem de eventos que invariavelmente envolvem as duas partes. Não criamos laços de amizade afastados, ninguém se torna amigo de outra pessoa sem que essa sinta o mesmo (ainda que, algumas vezes, aconteça de a amizade ser mais forte de um lado que do outro...), ou pelo menos sem conviver com ela; da mesma forma, não odiamos alguém sem que nos façam algo. É justo, então, amar alguém tanto que o bem-estar dessa pessoa se torne mais relevante pra nós do que o nosso próprio? É justo que a emoção mais arrebatadora de todas não implique nenhuma reciprocidade ou passado? O foda é que a vida não é justa! A gente vive numa porcaria de mundo em que o tamanho dos nossos esforços não é proporcional aos nossos sucessos; um mundo em que a alegria de um quase sempre é causa de tristeza pra outro; um mundo em que uma pessoa ama outra mais do que a si mesma e essa pessoa escolhe uma terceira por razões que seria doloroso demais tentar descobrir. Isso me leva a perguntar: vale a pena se deixar cativar sabendo que nada garante a felicidade do sentimento, mas sim que tudo aponta pro fracasso? Vale a pena investir num amor que só vai fazer sentido pra um coração esperançoso, sendo a própria esperança um desvio de percurso? Nós vivemos uma vida em que o amor se torna, a cada dia, “persona più non gratta”, e não é sem razão. É preciso muita coragem pra se apaixonar, e infelizmente a coragem também arrefece.

