Continuação...
... mas dessa vez se sentou altivo, porque de outra maneira sentia como se pudesse ser um perdão e não pediria perdão às pedras. Com a mesma altivez, lembrou-se de mirá-las do alto, como um homem que ameaça e que sabe que só o temor inspirado disfarça o temor sentido. Mas as pedras sabiam, também, enquanto pedras, porque sua natureza era de coisa que está lá e o homem que despontava era como a criança que obedece aos pais, mas ele percebeu muito tarde seu erro e não pôde voltar atrás. O que tinha que não podia perder estava ainda pela metade quando sabia que depois poderia tranqüilamente perder tudo; era na verdade muito simples de perder, pois que precisava senti-lo constantemente ou seria como agarrar fumaça no ar - é que sabia que os calos na alma não poderiam ser curados uma vez que finalmente desse nome à dor que porventura sentisse, pois é bem verdade que a sentia como alguém sente uma ferida que sangra sem saber.
Com arrogância maior pois que calculada olhou as joaninhas. 'Ora, mas vai ter um nome'. E por esperteza lembrou-lhes que talvez já até houvesse um, como se palavras sibilinas fossem imunes a argumentação muda de joaninha, mas sentiu logo pavor. É que não atentou a que eram um enigma para ele na mesma medida que para elas e que se o entendessem primeiro, ele estaria indefeso e teria de ouvi-las de cabeça baixa (e só Deus e ele sabiam que a mudez de uma joaninha argumenta por todos os lados, de maneira que ele seria vencido em várias frentes). Felizmente para Thomaz, elas o ignoraram de modo a que achasse o nome de uma vez ou desistisse. Ele percebeu isso e ficou um pouco sentido - elas também sabiam da importância da procura já que como joaninhas se chamavam vermelho e negro. Mas é que para ele seria mais complicado pois até agora se virara sem palavras, e quando os dedos aprenderam a reconhecer a vida no frio suor do rosto, a noite teve seu fim e a luz empurrou-o à força de volta ao mundo das palavras - além de elas serem pra enfeitar jardins e comer insetos e não se haverem dado jamais conta disso.
'É que precisa um nome', disse às cigarras e joaninhas em súplica; estas permaneceram mudas, mas as primeiras responderam 'cri' despretensiosas. Thomaz levantou-se de um salto, aviltado com a pretensão das cigarras de chamar de 'cri' o que surgira de sua própria mudez. Nunca lhe ocorreria que o nome pudesse significar tanto: embora não houvesse podido achá-lo ainda, sabia que era algo mudo: 'cri' significava tanto na língua das cigarras que sua cabeça começou a doer: 'vai fazer calor amanhã', 'gosto de insetos', 'vivo numa árvore' (!). Não poderia ser tantas coisas porque alguma faltaria como falta a escova de dentes quando se leva muito para uma viagem, de modo que 'cri' era impossível. Aí lembrou de sua mãe, Maria, que jamais poderia ter sido Joana ou Fátima.
Magoado com as cigarras, decidiu por voltar-lhes as costas e elas fizeram o mesmo com despeito; é que amavam os 'cris', que pra elas eram como a vida e a morte...
Com arrogância maior pois que calculada olhou as joaninhas. 'Ora, mas vai ter um nome'. E por esperteza lembrou-lhes que talvez já até houvesse um, como se palavras sibilinas fossem imunes a argumentação muda de joaninha, mas sentiu logo pavor. É que não atentou a que eram um enigma para ele na mesma medida que para elas e que se o entendessem primeiro, ele estaria indefeso e teria de ouvi-las de cabeça baixa (e só Deus e ele sabiam que a mudez de uma joaninha argumenta por todos os lados, de maneira que ele seria vencido em várias frentes). Felizmente para Thomaz, elas o ignoraram de modo a que achasse o nome de uma vez ou desistisse. Ele percebeu isso e ficou um pouco sentido - elas também sabiam da importância da procura já que como joaninhas se chamavam vermelho e negro. Mas é que para ele seria mais complicado pois até agora se virara sem palavras, e quando os dedos aprenderam a reconhecer a vida no frio suor do rosto, a noite teve seu fim e a luz empurrou-o à força de volta ao mundo das palavras - além de elas serem pra enfeitar jardins e comer insetos e não se haverem dado jamais conta disso.
'É que precisa um nome', disse às cigarras e joaninhas em súplica; estas permaneceram mudas, mas as primeiras responderam 'cri' despretensiosas. Thomaz levantou-se de um salto, aviltado com a pretensão das cigarras de chamar de 'cri' o que surgira de sua própria mudez. Nunca lhe ocorreria que o nome pudesse significar tanto: embora não houvesse podido achá-lo ainda, sabia que era algo mudo: 'cri' significava tanto na língua das cigarras que sua cabeça começou a doer: 'vai fazer calor amanhã', 'gosto de insetos', 'vivo numa árvore' (!). Não poderia ser tantas coisas porque alguma faltaria como falta a escova de dentes quando se leva muito para uma viagem, de modo que 'cri' era impossível. Aí lembrou de sua mãe, Maria, que jamais poderia ter sido Joana ou Fátima.
Magoado com as cigarras, decidiu por voltar-lhes as costas e elas fizeram o mesmo com despeito; é que amavam os 'cris', que pra elas eram como a vida e a morte...


1 Comments:
Uma fábula interessante. Contudo, acho que devo promover uma crítica com intenção construtiva: Procure escrever com um contraste maior entre fundo e texto. Essas cores que está usando contra o fundo preto tornam a leitura muito cansativa. Por favor, não leve a mal. Um abraço.
Post a Comment
<< Home