22 July 2007

Eco - Um homem num deserto é o próprio deserto...

De tudo que pude perceber no caminho, percebo agora uma dádiva: sou fundo, muito fundo. Não sei bem a quem agradecer, se a Deus ou a quem sejas, ou aos que foram com seus estares ao mesmo tempo em que eu - tímido, um tanto perplexo como quem pela primeira vez reflete o Sol, procurei ser, apaixonado e recolhido no meu próprio estar por muito tempo. Mas percebi a profundez surda do meu sou. E quando pela primeira vez ouvi o baque ecoando, foi quando aprendi, apreendendo, é claro!, a matemática da coisa (a ciência - do prosaico - só a alcança quando fala certa língua...): quão mais demore, quão mais fundo será. Ah!, mas nessa hora estava louco, embriagado dos sons, seria prudente não me ouvir... Varrido pelo impulso imensamente leve da vontade de ser, minhas mãos escorregaram muitas vidas, algumas fabulosas, pra tocar o chão outra vez (Pasmem! nunca fora tocado!). Sempre sobra um quê de nós que se recusa à entrega. Diz que não e fica à parte da jornada, cética, esperando a comprovação do sucesso para seguir, às espiadelas e passos curtos de pingüim. Uma graça de ver! Aviltante de ouvir dizer. E ainda dizem que no final não se chega a parte alguma...! Não sou tão covarde, afinal... E agora já vou à praia.
...
E então pensamos no deserto. O desejo do mar é a contrapartida natural da solidão. É o desejo de se reintegrar, de se conectar a alguma coisa outra vez, quando nos sentimos muito espalhados. E mesmo que continuemos a gritar, o vazio não dá resposta; gritar no vazio só o torna mais vazio. Por isso alguns preferem a impressão da dor à própria dor; até ela acaba. É o mal com data de validade, é como tudo pelo que não podemos nos afeiçoar. Portos seguros não existem no mar, não se precisa deles lá. Espalhamo-nos por algo mais sensível do que o calor, não precisamos encarar o Sol nem recorrer à loucura no mar. E há tantos sons que - nem sei bem se enganam a sensação de solidão ou, antes disso, a preenchem - ouvimo-los com o corpo todo; os pêlos da nunca se arrepiam à primeira nota. A ubiqüidade do mar não é como a do deserto; no mar somos deuses, no deserto somos o deserto, de tão diluídos...

05 July 2007

La mer des étoiles un de telle façon sec... - La douleur de vivre c'est bleu


Tinha um jeito quase que todo seu para fazer as coisas. Dizia e desdizia, e pensava que era original, tão cheio de si... E teve um dia, deve fazer um tempinho já, quando faltou luz. E só sobrou a luz das estrelas. Ele achava que já as tinha visto, muitas vezes, sempre igual, sempre iguais, mas pela primeira vez a viu-as refletida e refletidas nos rostos das pessoas. Havia tantas delas, de todos os tipos, tantas almas coloridas e diversas. E todas elas brilhavam com uma luz azul, amálgama de prata e anil. E dessa luz sugou toda a sua loucura, gritou como um doido varrido, pra que alguns desses rostos se voltassem pra ele. Subiu e subiu, sempre mais alto, o mais alto que pôde, ficou de pé sobre seu próprio eu até que os pudesse ver todos ao mesmo tempo: pequenos vaga-lumes, poeira de estrela em que as estrelas desfilavam; e os olhos, ah!, os olhos! eram a negrura assutadora do firmamento. Então percebeu que todas as coisas estavam em todas as coisas. Mas não sorriu. Chorou. Chorou um choro apertado, silencioso; chorou o choro das estrelas que se sentem tão sozinhas, por aí e por ali, em toda parte. E havia tantas delas e deles que não havia um sequer... Havia só o haver...Então chorou um choro de verdade, lavado de lágrimas, salgado como o mar que sempre tentara dizer-lhe tudo aquilo. Mas a violência dos seus sons não o permitiram, tinha muito medo dele. E seguiu chorando, olhando as estrelas das pessoas... E viu que a dor de viver era até a luz dos vaga-lumes. E só.