12 November 2007

Continuação...

... mas dessa vez se sentou altivo, porque de outra maneira sentia como se pudesse ser um perdão e não pediria perdão às pedras. Com a mesma altivez, lembrou-se de mirá-las do alto, como um homem que ameaça e que sabe que só o temor inspirado disfarça o temor sentido. Mas as pedras sabiam, também, enquanto pedras, porque sua natureza era de coisa que está lá e o homem que despontava era como a criança que obedece aos pais, mas ele percebeu muito tarde seu erro e não pôde voltar atrás. O que tinha que não podia perder estava ainda pela metade quando sabia que depois poderia tranqüilamente perder tudo; era na verdade muito simples de perder, pois que precisava senti-lo constantemente ou seria como agarrar fumaça no ar - é que sabia que os calos na alma não poderiam ser curados uma vez que finalmente desse nome à dor que porventura sentisse, pois é bem verdade que a sentia como alguém sente uma ferida que sangra sem saber.
Com arrogância maior pois que calculada olhou as joaninhas. 'Ora, mas vai ter um nome'. E por esperteza lembrou-lhes que talvez já até houvesse um, como se palavras sibilinas fossem imunes a argumentação muda de joaninha, mas sentiu logo pavor. É que não atentou a que eram um enigma para ele na mesma medida que para elas e que se o entendessem primeiro, ele estaria indefeso e teria de ouvi-las de cabeça baixa (e só Deus e ele sabiam que a mudez de uma joaninha argumenta por todos os lados, de maneira que ele seria vencido em várias frentes). Felizmente para Thomaz, elas o ignoraram de modo a que achasse o nome de uma vez ou desistisse. Ele percebeu isso e ficou um pouco sentido - elas também sabiam da importância da procura já que como joaninhas se chamavam vermelho e negro. Mas é que para ele seria mais complicado pois até agora se virara sem palavras, e quando os dedos aprenderam a reconhecer a vida no frio suor do rosto, a noite teve seu fim e a luz empurrou-o à força de volta ao mundo das palavras - além de elas serem pra enfeitar jardins e comer insetos e não se haverem dado jamais conta disso.
'É que precisa um nome', disse às cigarras e joaninhas em súplica; estas permaneceram mudas, mas as primeiras responderam 'cri' despretensiosas. Thomaz levantou-se de um salto, aviltado com a pretensão das cigarras de chamar de 'cri' o que surgira de sua própria mudez. Nunca lhe ocorreria que o nome pudesse significar tanto: embora não houvesse podido achá-lo ainda, sabia que era algo mudo: 'cri' significava tanto na língua das cigarras que sua cabeça começou a doer: 'vai fazer calor amanhã', 'gosto de insetos', 'vivo numa árvore' (!). Não poderia ser tantas coisas porque alguma faltaria como falta a escova de dentes quando se leva muito para uma viagem, de modo que 'cri' era impossível. Aí lembrou de sua mãe, Maria, que jamais poderia ter sido Joana ou Fátima.
Magoado com as cigarras, decidiu por voltar-lhes as costas e elas fizeram o mesmo com despeito; é que amavam os 'cris', que pra elas eram como a vida e a morte...

07 November 2007

Mariposa vermelha e negra

(...) Porque era como uma criança a quem disseram 'vai e não abre os olhos e ignora os arranhões' sem se preocupar com que crianças são curiosas e por curiosas são desobedientes e abrem os olhos só quando lhes dizem para não abri-los; e aí a imensidão lhes enche a vista na mesma hora, pois a vastidão imediata é muito agressiva e as horroriza tanto que não podem mais fechá-los e seguem andando só porque o corpo tem seu próprio saber, como se fosse o das plantas que respiram à noite e expiram de dia só pra que você as regue; e tremem as pobres crianças e choram, pois nunca lhes contaram que machucaria tanto (e nossa! seria como contar o final do filme) cada mariposa de uma nuvem de mariposas que era em conformidade com elas e justamente por causa das outras (e como doía o vento nas asas frágeis de precisa necessidade de continuar sendo! sozinha na dor de estar ali igual às outras) e a pele ardia sob o Sol. E a estrada que era reta com a escuridão de não vê-la torna-se reta apenas nos grãos de areia que não se pode enxergar pois que são a base de tudo, porque sobretudo, não era reta.
E quando escorre a primeira lágrima fria sulca a primeira estrada, e eis que tudo parecem estradas enquanto o descalor da lágrima chega ao chão e esfria os mesmos grãos de areia que antes permitiram que se andasse sobre eles - e eles estalam sob o calor resfriado, com o som das conexões que elas se negavam a ver. Mesmo assim, o absoluto parecia-se-lhes um velho ranzinza com um cachorro e uma arma no colo que diz não da sua cadeira na varanda, sem nem escutar um súplica; nem piscar lhes era permitido, donde sentiam que só as miragens eram reais, como só é real aquilo que se vê apenas e mais nada; quando se pedia a Deus para ser fulminado por um raio antes de pôr o pé seguinte no chão...
Uma vaga da velha dignidade pintaria-lhes as faces logo em seguida e ele olhou desaprovador para as joaninhas que em sua leviandade eram vermelhas e negras como só joaninhas podiam ser, e era como se a elas apenas fora dado o direito de ser vermelho e negro, e isso era como uma promessa de identidade e elas em resposta o encaravam com a boca cheia de inseto (como uma criança que, pega em falta, pára com um fiapo de macarrão pra fora da boca e, abdicando de moral para se justificar, sorve-o em seguida com muita calma despretensiosa). Estupefato com a desfaçatez das joaninhas, apertou o passo decidido a não compactuar com a ostensividade, pois lhe parecia que não havia de ser ostensivo - é que lhe escapava que para elas o processo é mais simples e termina logo antes de começarem a se reproduzir -, mas logo parou, pois se continuasse seria como o incauto que atravessa o sinal e é atropelado: a pressa não era permitida e 'afinal, não tenho três pés', pensou, suspirando de fingida desolação...

29 October 2007

A invenção - I Dhrymna

E foi como um sonho estranho que trazia atrás de si a preocupação dolorosa de ser de fato. Pois eu soube então, sem sombra de dúvida, que tudo estava conectado e isso quer dizer que de fato há desse tudo. Ali, de pé no calor modorrento da noite no jardim, sentia-se o medo horrível de ser, es os passarinhos debochados riam-se da falta de tato humana, que não sabe ser. Mas eles não precisavam de razão... Tampouco precisam as pessoas, mas elas não sabem disso, e eis que como sempre me mantive de pé procurando uma razão pra ser quando não ser parecia muito mais propositado, com a falta de propósito que só se vê no que não é nem nunca será. Mas o que era me feria os olhos e me deixava à beira das lágrimas e era ostensivamente de uma maneira irreal e meio fantasiada que ainda por cima zombava de mim: '- eu sou e ainda me dou o luxo de ser em camadas, como uma torta torta, hahaha!', e aquilo me fez comprimir os lábios em digna desaprovação. Ora, ele também o fizera em seu tempo, como os anteriores a ele, mas de uma maneira menos certeira. Seu novo eu o fazia com a plenitude dos que finalmente abstinham-se de razões e porquês. Atirando-se afinal, gritou com toda a mudez que pôde reunir: '!'. E o mundo aplaudiu com mudez proporcional, pois já vira ato assim dezenas de vezes. As poucas pessoas que são seguiam achando que haviam inventado os saltos, de qualquer jeito, bem como o amor e tudo mais...

Homenagem à Ermelinda, que me ensinou tanto...

23 September 2007

Wendhad

E eis que finalmente me movi de fato ou assim me pareceu. Mais do que os quilômetros percorridos, no entanto, senti na pele o próprio pensamento: a percepção causou mais estragos do que a idade jamais poderia causar. Não, dessa vez não culpo o tempo; ele foi até camarada, fez-se notar pela própria natureza de coisa que posiciona todas as outras na ordem mais saudável. Eu que me recusei a escutá-lo e me pus a caminho. Os minutos perdidos ou quase percorrendo a Paulista bem poderiam ter durado um segundo e isso teria significado o mesmo; mas as horas que passei em círculos bem as sinto dobradas: no fim, olhei pra baixo e vi a palma da minha própria mão...

17 September 2007

Wendfad...

Não consigo me mexer... Fecho os olhos e me imagino correndo, andando, revolvendo uma caneta entre os dedos, e então olho minhas mãos e elas estão paradas. Fecho os olhos outra vez e imagino as pernas se movendo e se cruzando, sendo pernas que se movem e se cruzam e quando os abro outra vez, estão paradas, sendo nada, porque pernas deveriam se mover e se cruzar... Ergo a cabeça um pouco e sinto que ela vai rolar e que vou poder ver do chão meu corpo sobre a cama.
Vou escorregando aos poucos, sinto como que uma coisa pegajosa sob as costas e reconheço a vontade e a vontade de vontade, mas continuo parado. Desespero, o mundo todo se torna ruído! Não reconheço nada e me aterroriza o medo da impercepção e o incômodo causado pela importância disso. Estendo a mão, enfim, porque ela só obedece aos seus hábitos: pego um comprimido e volto a me mexer. Não sei se me movo ou não, mas acho que sim...

02 September 2007

Rûmeriaith...

Minha imortalidade morre na ilusão que criei pra mim mesmo. Como, então, entre tantas personalidades, reconhecer qual "eu" foi bom e me permitiu descobrir o primeiro? De qualquer forma essa ilusão se chama como um alguém por que procuro desesperado e que não é mais do que um visitante do meu desejo. E tanto tempo passou... E um tempo tão pequeno acontece junto de mim.
Andar e correr e ficar preso no deserto, quando parecemos tanto conosco mesmos; quando insistimos em parecer conosco mesmos. Mas isso é fácil, já que não existe um "eu"... Então nos desfazemos de toda ilusão e criamos ou encontramos novas delas. Pela escuridão - a música, cantâmo-la e jogamos pedras que escorregam pela ponta dos dedos antes de não serem nada, mas existirem ecoando, porque ecoam. Talvez seja sempre assim e até agora é sempre agora...

22 July 2007

Eco - Um homem num deserto é o próprio deserto...

De tudo que pude perceber no caminho, percebo agora uma dádiva: sou fundo, muito fundo. Não sei bem a quem agradecer, se a Deus ou a quem sejas, ou aos que foram com seus estares ao mesmo tempo em que eu - tímido, um tanto perplexo como quem pela primeira vez reflete o Sol, procurei ser, apaixonado e recolhido no meu próprio estar por muito tempo. Mas percebi a profundez surda do meu sou. E quando pela primeira vez ouvi o baque ecoando, foi quando aprendi, apreendendo, é claro!, a matemática da coisa (a ciência - do prosaico - só a alcança quando fala certa língua...): quão mais demore, quão mais fundo será. Ah!, mas nessa hora estava louco, embriagado dos sons, seria prudente não me ouvir... Varrido pelo impulso imensamente leve da vontade de ser, minhas mãos escorregaram muitas vidas, algumas fabulosas, pra tocar o chão outra vez (Pasmem! nunca fora tocado!). Sempre sobra um quê de nós que se recusa à entrega. Diz que não e fica à parte da jornada, cética, esperando a comprovação do sucesso para seguir, às espiadelas e passos curtos de pingüim. Uma graça de ver! Aviltante de ouvir dizer. E ainda dizem que no final não se chega a parte alguma...! Não sou tão covarde, afinal... E agora já vou à praia.
...
E então pensamos no deserto. O desejo do mar é a contrapartida natural da solidão. É o desejo de se reintegrar, de se conectar a alguma coisa outra vez, quando nos sentimos muito espalhados. E mesmo que continuemos a gritar, o vazio não dá resposta; gritar no vazio só o torna mais vazio. Por isso alguns preferem a impressão da dor à própria dor; até ela acaba. É o mal com data de validade, é como tudo pelo que não podemos nos afeiçoar. Portos seguros não existem no mar, não se precisa deles lá. Espalhamo-nos por algo mais sensível do que o calor, não precisamos encarar o Sol nem recorrer à loucura no mar. E há tantos sons que - nem sei bem se enganam a sensação de solidão ou, antes disso, a preenchem - ouvimo-los com o corpo todo; os pêlos da nunca se arrepiam à primeira nota. A ubiqüidade do mar não é como a do deserto; no mar somos deuses, no deserto somos o deserto, de tão diluídos...